Por Heron de Andrade
Por determinação superior fui visitar a exposição a Hora da Estrela sobre Clarice Lispector, no Centro Cultural Banco do Brasil. Não havia nenhum terreno baldio, nem cabra vadia, tampouco era meia noite, só pra citar Nelson Rodrigues, outro grande escritor nacional. Fui de manhã, no horário dos desocupados, aquele horário em que você se pergunta o que toda essa gente está fazendo aqui, por que não estão no trabalho?E confesso que só fui lá obrigado. Ao chegar na galeria deparei-me com paredes ornadas com fragmentos de textos de Clarice. Parecia um outdoor de scraps do Orkut. Fui lendo aquelas frases e não as cito aqui porque não tomei nota. E por que deveria? Afinal, fui lá sob forte pressão acadêmica. Assim, lápis e caderno ficaram em casa. Fui com os olhos e com os demais sentidos sensoriais. Nova sala, novas frases. Lembro uma em que Clarice afirmava se sentir incumbida de cuidar do mundo inteiro. Mas que senso de grandeza, pensei. No meio dessa sala, um enorme colchão de molas, em mal estado, partido ao meio e com uma frase escrita sobre o tecido, trecho de uma das obras da autora homenageada. Olha, eu confesso não entendo nada de artes. Fiquei ali, com pose de intelectual, tentando compreender o sentido daquele objeto horroroso colocado no centro da sala de exposição. Minutos depois, desisti. Fui adiante. Agora uma escura sala pequena, com outra dezena de frases, sob iluminação direta que se acendia conforme o público acionava os censores. Depois, uma sala ampla, paredes revestidas com gavetas de madeira, como as que temos dentro dos armários em nossos quartos. Pois bem, algumas dessas gavetas eram reais e tinham chaves numeradas. O visitante as podia abrir e encontrava pequenos tesouros, fragmentos da vida e obra de Clarice Lispector. Comecei a me aventurar, explorando o material. Deparei-me com exemplares de livros, fotografias antigas, cartas e muitos originais de textos. Então comecei a me sentir um invasor: as gavetas já não eram menos que a própria memória de Clarice Lispector, exposta ao público. Senti-me dentro do cérebro da autora, mexericando em suas intimidades. Na gaveta 25, recordo-me de ler uma carta, datilografada, com muitos erros, respondendo a uma proposta de emprego.Clarice prometia ao editor fazer um trabalho que fosse íntimo, bem humorado e experiente. Que clara consciência de si, eu meditei! Na minha pesquisa encontrei cartas do compadre Érico Veríssimo. Relatos da vida nos Estados Unidos. Na gaveta 38, ou perto dessa, li uma amorosa carta de Clarice dirigida ao seu filho Paulo. Li ainda, um pedido a seu agente, que liberasse os direitos de exclusividade para que ela pudesse republicar textos em outras revistas, pois precisava de dinheiro. Fui explorando, gaveta a gaveta me encantando por uma pessoa simples, mas admirável, sentia vontade de conversar com ela. De repente, me debato com os originais do conto Mineirinho.Na última sala o vídeo de uma entrevista de Clarice. Ali permaneci por incontáveis e deliciosos minutos, contemplando a imagem e os sentimentos dessa grande mulher. Ela explicou o conto do Mineirinho que sendo bandido levou trágicos treze tiros da polícia, quando apenas um só bastava. O primeiro tiro o matou. O décimo terceiro tiro foi pra Clarice, e acrescento, que virou bala perdida e atingiu-me também.