quarta-feira, 2 de dezembro de 2009

A origem da Cultura...

UniCEUB Antropologia- prof. Leandro Marshall Nome: Heron Andrade Turno: noturno Resenha do livro Cultura um conceito antropológico, de Roque de Barros Laraia. O presente trabalho é uma resenha crítica do livro Cultura um Conceito Antropológico, de Roque Laraia. No prólogo, o autor explica o que pretende com o texto, ou seja, abordar a leitores iniciantes em Antropologia as noções básicas sobre cultura. Divide a apresentação em duas partes. Na primeira discorre sobre a natureza da cultura ou da natureza à cultura. Na segunda parte do livro Laraia explica como opera a cultura na sociedade e de que forma o homem é influenciado pela cultura em que está inserido. “A natureza dos homens é a mesma, são seus hábitos que os mantêm separados”. Essa citação de Confúcio denota a complexidade do assunto abordado e nos introduz no objeto de reflexão do autor. A primeira parte do livro é dividida em seis capítulos: o determinismo biológico; o determinismo geográfico; antecedentes históricos do conceito de cultura; o desenvolvimento do conceito de cultura; idéia sobre origem da cultura e as teorias modernas sobre cultura. Inicialmente no capítulo o Determinismo Biológico, o autor se refere aos aspectos genéticos. Segundo ele, existe uma tendência de consenso entre os cientistas de que “...as diferenças genéticas não são determinantes das diferenças culturais”. Dessa forma, entende-se que uma criança pode ser educada em qualquer cultura e que mentalmente não se diferenciará em nada de seus irmãos de criação. Por exemplo, se uma criança brasileira oriunda do sertão nordestino é educada por suecos, desde pequena, na Europa, ela terá as mesmas condições de desenvolvimento que uma criança sueca. Ao apresentar o capítulo Determinismo Geográfico, Laraia considera como o meio ambiente influencia a diversidade cultural, ou seja “a ação mecânica das forças naturais sobre uma humanidade puramente receptiva”. Essa teoria foi difundida no início do século XX, por geógrafos, teve grande popularidade e tentava explicar a existência de civilizações mais desenvolvidas em função da latitude. Todavia, a partir dos anos 1920, esse tipo de determinismo foi refutado, tendo em vista uma série de exemplos de povos que viviam numa mesma região e que desenvolveram hábitos culturais totalmente diferentes. Um exemplo, é o caso dos índios do Parque Nacional do Xingu. Os Xinguanos e os Kayabi habitam o mesmo parque. Os Xinguanos não consomem proteínas de grandes mamíferos, pois a caça é proibida por razões culturais. Já os Kayabi são excelentes caçadores e preferem justamente os mamíferos de grande porte, como a anta, o veado, o caititu. Outro caso interessante é o de esquimós e lapões. Ambos vivem em regiões de clima muito frio, o primeiro na América e o segundo na Europa , no entanto, desenvolveram culturas totalmente diferentes, seja na forma de construção de suas moradias, alimentação e caça, demonstrando que necessidades de sobrevivência diferentes são preponderantes sobre a limitação do ambiente. No capítulo Antecedentes Históricos do Conceito de Cultura o autor define como uma tarefa primordial da Antropologia moderna a compreensão da evolução da elaboração do conceito de cultura ao longo do tempo, a partir da citação de vários pensadores. Para Edward Tylor (1832-1917) cultura é “ no amplo sentido etnográfico este todo complexo que inclui conhecimentos, crenças,arte, moral, leis, costumes,ou qualquer outra capacidade ou hábitos adquiridos pelo homem como membro de uma sociedade.” Em 1871, Tylor definiu cultura como sendo “ o comportamento aprendido, tudo aquilo que independe de uma transmissão genética”. Na visão de Locke (1632-1704) e Marvin Harris (1969) que compartilham da idéia da tabula rasa, o homem não tem uma bagagem cultural inata. Marvin Harris acrescenta “ nenhuma ordem social é baseada em virtudes inatas, uma mudança no ambiente resulta numa mudança de comportamento.” No capítulo seguinte o autor acrescenta observações dos principais estudiosos que formularam conceitos de cultura. Segundo Tyler, a diversidade de culturas seria resultado da desigualdade de estágios existentes no processo evolutivo. Com isso, visava estabelecer uma escala de sociedades mais evoluídas, como as nações européias, e no outro extremo as menos evoluídas, as tribos selvagens. Esse ponto de vista era corrente no decorrer do séc. XIX por influência da Origem das Espécies, de Charles Darwin e se caracterizava pela idéia de que a cultura se desenvolve de modo uniforme. Assim, cada sociedade há de passar por várias etapas até atingir um nível mais avançado. Em outras palavras Laraia resume “Etnocentrismo e ciência marchavam juntas nessa época”. Em contraposição ao evolucionismo, surge Franz Boas que defendeu a chamada Escola Cultural Americana ou particularismo histórico, segundo a qual cada cultura segue seus próprios caminhos em função dos diferentes eventos históricos que enfrentou. Nesse sentido, a explicação evolucionista de cultura só tem sentido quando multilinear. Há ainda, uma outra discussão em foco: o que é vital e o social, isto é o biológico e o cultural. “A preocupação de Kroeber é evitar a confusão, ainda tão comum, entre o orgânico e o cultural. Não se pode ignorar que o homem, membro proeminente da ordem dos primatas, depende muito de seu equipamento biológico. Para se manter vivo, independentemente do sistema cultural ao qual pertença, ele tem que satisfazer um número determinado de funções vitais, como a alimentação, o sono, a respiração, a atividade sexual etc. Mas, embora estas funções sejam comuns a toda humanidade, a maneira de satisfazê-las varia de uma cultura para outra”.(LARAIA, 37). O que Kroeber procurou mostrar e é ressaltado no texto de Laraia é que o homem superou o lado biológico e de certa forma liberou-se da natureza. Dessa forma, a espécie se expandiu por todos os confins do planeta, adaptando-se a qualquer ambiente, fato que nenhum outro animal realizou. Com relação ao conceito de Cultura, Kroeber a definiu como um processo acumulativo de experiências. Assim, o modo de vida de um grupo influencia mais o comportamento do que a herança genética. Além disso, adquirindo cultura o homem passou a depender mais do aprendizado do que a agir de forma geneticamente determinada. Outra questão polêmica é que Kroeber define gênios como Einstein ou Santos Dumont, não a partir da herança genética, mas como pessoas comuns, que sabem utilizar os conhecimentos da sociedade, da sua cultura para desenvolver novas teorias, novos conhecimentos e máquinas. Referindo-se à cultura como um processo cumulativo o autor compara o rápido distanciamento do homem em relação aos animais pelo aprendizado da comunicação. Pela comunicação oral a criança vai recebendo todo conhecimento acumulado da cultura em que vive. Por outro lado, um animal também tem suas formas de comunicação. Ocorre que o homem desenvolveu a tal ponto seu nível de integração com outro semelhante que a transmissão dos conhecimentos se dá de forma mais efetiva, beneficiando toda a espécie. Um chipanzé não consegue comunicar às futuras gerações o conhecimento que tenha aprendido com suas experiências. Tudo morre com o indivíduo. Em conseqüência, o capítulo se encerra com uma importante constatação: não existiria cultura se o homem não tivesse desenvolvido um sistema articulado de comunicação oral. Num passo seguinte, no capítulo Idéia sobre a Origem da Cultura, Laraia aborda o surgimento da cultura como resultado da mudança do cérebro humano com o aumento da capacidade de absorção e desenvolvimento. Lévi-Strauss é destacado no texto, por sugerir que a cultura teria nascido no momento em que o homem convencionou a primeira regra, a primeira norma de conduta social. Mas para Leslie White, o homem diferenciou-se dos animais quando o cérebro foi capaz de gerar símbolos e de interpretá-los: “todo comportamento humano se origina no uso de símbolos”. De fato, sem símbolos não haveria cultura. Mas paira o questionamento se esta seria uma característica unicamente humana e devido à complexidade física do cérebro. Para Kroeber e uma corrente de pensadores católicos existiu um ponto crítico na história humana, em que houve a eclosão da cultura. Dessa forma a cultura teria surgido como um acontecimento imediato, para o cientista, ou no pensamento religioso, preocupado em conciliar fé e ciência, a cultura surgiu no momento exato onde a evolução atingiu tal ponto que o homem tornou-se digno de receber uma alma e tornar-se filho de Deus. Todavia, o ponto crítico foi provado como uma impossibilidade científica, pois a natureza não age por saltos. O corpo humano levou milhares de anos para formar-se e a cultura foi se desenvolvendo de forma simultânea ao equipamento biológico humano, assim como ocorreu com o bipedismo e aumento do volume cerebral,outras características intrínsecas do homem. No final da primeira parte do livro, Laraia nos apresenta as modernas teorias sobre cultura. Por um lado, há aqueles antropólogos que percebem a cultura como um sistema adaptativo. Apesar de muitas divergências, autores como Leslie White , Keesing, Harris e Salis, concordam em afirmar que cultura são padrões de comportamento transmitidos e que o homem muda culturalmente para se adaptar às mudanças do meio ambiente. Nesse contexto, o uso de ferramentas, a organização social, a economia de subsistência são formas de domínio adaptativo da cultura. Keesing ainda menciona as teorias idealistas de cultura, as quais se subdividem em cultura como sistema cognitivo,isto é, aquela construída pelos membros da comunidade a respeito de seu próprio universo;a cultura como sistemas estruturais, ou seja aquela que é definida a partir dos símbolos, como uma criação acumulativa da mente do homem; e a cultura como sistemas simbólicos onde existem duas abordagens distintas: uma considera cultura como um conjunto de mecanismos de controle, planos,receitas, regras e instruções para governar o comportamento. Para a outra corrente a cultura é um sistema de símbolos e significados e compreende categorias ou unidades e relações e regras sobre modos de comportamento. Concluindo a primeira parte do livro, Laraia observa: “os antropólogos sabem de fato o que é cultura,mas divergem na maneira de exteriorizar esse conhecimento”. Na segunda parte do Livro Laraia se propõe a abordar a cultura de modo mais prático. Sua intenção é mostrar como a cultura molda a vida do ser humano e condiciona sua visão de mundo. Já no primeiro capítulo ele compara homens de povos distintos como se usassem lentes diversas e por isso suas visões do mundo seriam desencontradas. Desse modo, para um antropólogo a floresta amazônica seria apenas um emaranhando confuso de árvores e arbustos, mas para um indígena a floresta está repleta de simbologias, de referenciais para sua vida, como árvores que demarcam a localização ou plantas de uso medicinal que só um nativo reconheceria. Todos nós temos a tendência de achar que nossa visão de mundo é sempre a melhor. Discriminamos os valores, os costumes alheios. Isso decorre de uma herança cultural de ordem moral e valorativa. Assim, facilmente identificamos as pessoas estranhas a nosso convívio pela roupa, postura, língua. Pessoas de costumes diferentes riem de costumes diversos. Laraia cita o exemplo do pastelão americano que assistido por brasileiros tem menos graça do que uma comédia erótica italiana, porque espera-se em nossa cultura que as anedotas venham com uma dose de sexo e não com arremesso de tortas e bolos na face do adversário. Em outras palavras até o riso é condicionado por padrões culturais. Em seguida, um aspecto interessante é abordado. Trata-se de como a cultura interfere no plano biológico humano. Como exemplos são citados os escravos africanos que uma vez acorrentados e trazidos à América , afastando-se de suas raízes sofriam de apatia, perdiam a razão de viver e muitos cometiam suicídio provocado pelo chamado banzo ou saudade. Outro exemplo trágico apresentado pelo autor é a morte de índios brasileiros Kaigandes próximos a São Paulo quando da construção de ferrovias dentro de suas terras. Os seus deuses e rituais mostraram-se impotentes contra a máquina branca e com isso os jovens se subjulgaram à nova cultura, os velhos perderam a esperança e esperavam a morte que não tardava a ocorrer. Por outro lado, e por dizer menos traumático, a sociedade moderna convive com as chamadas doenças psicossomáticas, o stress, a depressão que nada mais são do que conseqüências da frustração encontrada diante dos modelos de vida dos grandes centros urbanos. Outro aspecto considerado pelo autor é o fato de que os indivíduos participam de forma limitada de sua cultura. Não é possível um indivíduo estar igualmente familiarizado com todos os aspectos de sua sociedade.Isso ocorre por diversas razões como distinção de sexo, idade, incapacidade de desenvolver funções por limitações físicas. Mas algumas razões são meramente arbitrárias. Em muitas culturas, mulheres têm acesso restrito a determinadas atividades e funções sociais. Na nossa sociedade, por exemplo, um jovem de 16 anos pode votar, mas não pode dirigir, nem ir à guerra, nem ser preso caso cometa um crime comum. Determinados filmes só são permitidos a maiores de 18 anos. Mas qual é a diferença de um adulto de 18 anos e um jovem de 17 anos 11 meses e 20 dias? Tratam-se de arbitrariedades culturais. O primordial nessa discussão é que o indivíduo conheça o mínimo dos aspectos de sua cultura que lhe permita articulação eficaz com os demais membros da sociedade. A cultura de um povo tem sua própria lógica. Temos a tendência de só considerar lógico o nosso sistema cultural e desprezar os que nos são estranhos. O autor destaca que um hábito cultural só poderá ser analisado se observado a partir da cultura em que está inserido. Por fim, Laraia trata da dinamicidade da cultura. Nesse aspecto, o tempo é um elemento importante. Hábitos dos anos 50, em nossa sociedade hoje passam despercebidos pelos nossos jovens. As regras morais, então vigentes nos chamados anos dourados, podem ser consideradas nulas em nossos dias. Uma jovem hoje pode fumar ou beijar em público sem que sua reputação seja maculada. Diga-se, algo impensável na época da juventude de sua mãe. Da mesma forma, o casamento indissolúvel foi posto à prova e as pessoas passaram a agir de modo diferente com o passar dos anos. Cada sistema cultural está em constante mudança. É importante respeitar a diversidade entre os povos, saber entender as diferenças e estar apto a enfrentar serenamente as constantes mudanças. Concluindo, o texto de Laraia nos fornece importantes subsídios para entender o que vem a ser cultura. Questão essa de difícil solução, pois está permeada de questionamentos profundos sobre o que é o ser humano,suas origens e o que nos diferencia dos outros animais desse planeta. Ao expor as diversas teorias de autores que viveram em tempos diferentes percebe-se que nossa noção, nosso conhecimento está em constante evolução e que novas reflexões são produzidas a cada dia pelos estudiosos de Antropologia.

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